domingo, 27 de fevereiro de 2011

milos forman| um voo sobre um ninho de cucos



McMurphy: What do you think you are, for Chrissake, crazy or somethin'? Well you're not! You're not! You're no crazier than the average asshole out walkin' around on the streets and that's it.

mais do que um filme sobre loucura, um filme sobre sanidade e liberdade.

Chief Bromden: My pop was real big. He did like he pleased. That's why everybody worked on him. The last time I seen my father, he was blind and diseased from drinking. And every time he put the bottle to his mouth, he don't suck out of it, it sucks out of him until he shrunk so wrinkled and yellow even the dogs didn't know him.

McMurphy: Killed him, huh?

Chief Bromden: I'm not saying they killed him. They just worked on him. The way they're working on you.

sons de vez 2011| long way to alaska


num concerto simpático, calmo, com os devidos picos de energia, os long way to alaska apresentaram as suas belas músicas. com muitas falhas técnicas, que nada tiveram que ver com os bracarenses, evidenciou-se no entanto uma falha da organização da mostra: os long way to alaska por muito bons que sejam têm ainda pouco trabalho, pelo que o concerto acabou por saber a pouco, não durando muito mais que uma hora. teria sido melhor, à semelhança do que se passou o ano passado e no anterior, fazerem um concerto duplo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

cala-te e come



só num país desmotivado, deprimido, miserável poderiam aparecer as letras de nuno prata. letras de um povo que se conforma, de um povo que desiste, voz de quem se calou e comeu. nas palavras do jornalista de Blitz, creio que Rui Miguel Abreu, mais do que a crítica, a música do ex-ornatos, etiqueta difícil de descolar, é música de "constatação social".

instrumentalmente originais é impressionante ver nuno prata, nico tricot e antónio serginho ao vivo. descontraídos, conseguem dar valor aos difíceis intervalos entre as músicas, transformando duas horas numa experiência única, fazendo a nossa atenção balouçar entre a voz e os instrumentos.

foi sexta. para a semana há long way to alaska.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

sons de vez 2011| nuno prata



dentro de algumas horas sobe ao palco do auditório da casa das artes de arcos de valdevez nuno prata, músico celebre por ter sido baixista dos míticos Ornatos Violeta, que assumiu a solo uma marca muito pessoal. com dois trabalhos a solo: Todos os Dias Fossem Estes (Outros) e Deve Haver de 2010 o cantautor (não sei se a designação é correcta) traz a promessa de um grande espectáculo com músicas brilhantes como Hoje Quem?, Se Acabou, Acabou ou Essa Dor Não Existe. com um registo fortemente acústico as letras assumem uma posição central nos ritmos brilhantemente construídos. não será ainda de espantar alguns ecos da sonoridade dos OV na música daquele que é um dos mais autênticos e melhores artistas a trabalhar a solo da actualidade na ocidental praia lusitana.

radiohead| king of the limbs dia 19 de fevereiro



é verdade, sai amanhã aquele que é, para já, o mais forte candidato a álbum do ano. pela amostra desta excelente Lotus Flower, só podemos esperar coisa boa...

sam mendes| um belo filme americano|1999



com interpretações brilhantes de Kevin Spacey, Chris Cooper e Wes Bentley a direcção mágica de Sam Mendes transforma o belíssimo guião de Alan Ball numa experiência única. um filme sobre falsa moralidade, sobre desejo, sobre o peso do quotidiano e a destruição da identidade, sobre liberdade, mas sobretudo sobre a beleza de tudo, desde a vida em geral a um saco de papel que em dias de tempestade se mantém aéreo por muito tempo. um belíssimo filme.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

sons de vez 2011| dealema e o hip-hop consciente



dotados de um hip-hop consciente de lirismo admirável, os Dealema estiveram o fim-de-semana passado no sons de vez. o colectivo nortenho veio apresentar o ep do ano passado Arte de Viver. esquecendo um pouco esse trabalho, penso que é importante fazer ênfase aos dois trabalhos anteriores, assim como às influências do seu trabalho que por vezes brotam.

com hip-hop poético, não se limitando a rimar, os dealema apresentaram em 2008 o notável V Império, com o intuito de expandir, não só a sua influência, como também a lingua portuguesa (não tivesse este conceito sido criado pelo padre antónio vieira). nele há ecos de 1984 de orwell, com uma reflexão sobre a violência como ferramenta de submissão de um povo em sala 101,ecos de kafka na metamorfose, neste caso do espírito. juntando a estas referências uma poesia que reflecte sobre a sociedade, sobre o indivíduo, sobre o amor, sobre o ódio, sobre a solidão, concentrando forças na consciência social e no papel da arte no processo de transcendência, torna-se um trabalho de audição fundamental, para quem gosta deste estilo de características tão próprias.

com características semelhantes apresentaram em 2004 o homónimo Dealema, mais poético e mais forte psicológica e artisticamente, na minha opinião.

mais do que boas rimas e instrumentais os dealema apresentam sempre bons conceitos e grandiosas referências culturais, algumas evidentes por serem tema central de álbuns ou de faixas, outras mais discretas (lembro-me por exemplo de uma referência aos cães de Pavlov).

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

the n.e.c.| é não é?



de atlanta, eua, os the n.e.c. apresentaram em 2010 este álbum Is. apresentam-se no myspace como psicadélico shoegaze, o que os classifica melhor que qualquer outra etiqueta (ainda que eu não saiba descrever o shoegaze), e têm neste álbum um excelente exercício de expressão musical. com diversos pontos fortes, destaco a Tightroper (no player carregando no botão de informação vai-se ter ao bandcamp onde se pode escolher a faixa), talvez por ser de todas a mais simples, sem que isso ponha em causa a sua harmonia e a sua beleza. com a voz distorcida, as guitarras servem o prato principal, enquanto o baixo e a bateria elevam a música a uma qualidade surpreendente. é de louvar o poder com que iniciam o álbum.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Charlie Kaufman e Michel Gondry| A Natureza Humana| 2001


mais um filme nascido da pena de Charlie Kaufman. mais um filme genial. a realização de Michel Gondry assenta-lhe que nem uma luva (especialmente aqueles aparentes defeitos) num filme que retrata de uma forma espantosa a natureza humana. como em qualquer filme de Kaufman por trás de uma ideia invulgar (ainda que neste caso não tão original como noutros filmes) surgem diálogos, relacionamentos e contactos humanos que transformam uma comédia bem disposta num filme perturbante em que os lados mais fracos do homem, o desejo à adaptação, a indecisão, a traição são postos em exposição. tudo isto a partir de uma mulher com muito pêlo, um cientista comportamental e um selvagem educado pelo pai para ser um macaco. um filme obrigatório para quem gosta de psicologia.

Nathan Bronfman: Remember, when in doubt, don't ever do what you really want to do.
Lila Jute: That's the key.

Nathan Bronfman: What is love anyway? From my new vantage point, I realize that love is nothing more than a messy conglomeration of need, desperation, fear of death and insecurity about penis size.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

pensamento lógico


life modular de Tim El Marinero @ flickr

as ideias quando quadradas e com ângulos, mesmo que encaixem, não deslizam. é um poema que as faz deslizar. é o pensamento sem sentido, sem lógica, que desliza rio abaixo. o pensamento lógico é mais duro, mais resistente, obstruindo a artéria, secando a alma. e somos só números, não interessa a alma, porque a alma pesa no corpo, é o apêndice da existência, o que interessa é a inteligência e a capacidade de dizer frases completas sem dar erros e fazer contas abstractas e ver os mercados cair. a beleza, a arte, a música das coisas não interessa para nada. não se constroem casas com blocos de fluídos.

Moody Blues| Melancholy Man

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

jean-luc godard| a sociedade tecnocrata



Alphaville de Jean-Luc Godard retrata uma sociedade tecnocrata, uma sociedade lógica, à qual chega um agente secreto dos "países exteriores" cuja missão principal é destruir esta sociedade robótica. esquecendo toda a qualidade do filme, a imagem e música perturbantes, a beleza e o charme de Anna Karina, vale a pena pensar na nossa sociedade.

olhemos para os nossos governantes. olhemos para a actualidade. olhemos para toda a burocracia e todo o afastamento humano que permitiu que uma mulher estivesse morta em casa durante 9 anos, caso que, infelizmente, não é único. existe uma crescente automatização da sociedade. tudo é automático. tudo são números e probabilidades. engenheiros, economistas e advogados preenchem grande parte dos lugares da assembleia. poucos são os sociólogos e os que estudam os homens, as pessoas. porque controlar números é fácil. as pessoas são bem mais abstractas.

nessa perspectiva, este Alphaville devia ser obrigatório para todos os governantes.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

supergrass| tales of endurance



variando entre o registo transcendente e o brit-pop que lhes é conhecido, os Supergrass têm neste Tales of Endurance um som de resistência, abrindo o excelente Road to Rouen de 2005, que inclui, por exemplo a brilhante St. Petersburg. é realmente uma pena que a banda britênica tenha acabado.

(creio que não existem mais para além desta. se alguém souber porque é que se chama part.4,5 6, pode acrescentar nos comentários)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

anda aí um filho da mãe que toca guitarra que se farta!



vindo dos If Lucy Fell, dos I Had Plans e dos recentemente formados Asneira, Rui Carvalho decidiu avançar por uma carreira a solo. com o bonito nome de Filho da Mãe deambula por sonoridades tão diferentes como a guitarra de Carlos Paredes (deambulação menos frequente) e os Blues bem americanos, formando um estilo único, diferente de tudo o resto. com apenas (apenas? tanto!) uma guitarra semi-acústica de cordas de nylon cria magníficos ambientes em que não só a música maravilha, como também a dança dos dedos do Filho da Mãe, visualmente incrível de ver, embriaga o público.

o som deste vídeo não terá grande qualidade, haveria outros com melhor, mas esta é a música que gostaria de destacar, principalmente pela presença das sonoridades coimbrãs do fado e americanas do blues. aconselho a passagem pelo seu myspace.

odeio domingos

e eu normalmente não sou de ódios. só odeio mesmo domingos... filhos da mãe!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

"não tirei fotos porque quero lembrar, que ainda é cedo ou muito tarde para me vires buscar"

não tocaram esta, mas resume a minha atitude no concerto que, a propósito, foi absolutamente perfeito, desde que o Filho da Mãe entrou em palco. por falar nisso, vale a pena conhecer o Filho da Mãe:

http://www.myspace.com/filhodamae

sábado, 5 de fevereiro de 2011

neste momento sinto ódio por todos os seres humanos. a isso chama-se raiva.
neste momento apetece-me fazer algo, mas não me consigo mexer, nem pensar no que será. a isso chama-se tédio.

sou uma chávena de raiva com tédio até ao bordo.

(graças a deus que alguém está com sede)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cream| White Room



a banda essencial de Eric Clapton.

Joel and Ethan Cohen| Um Homem Sério



os irmãos Cohen têm, nos últimos anos, feito, de forma regular, alguns dos melhores filmes da actualidade. com um duro No Country For Old Men em 2007, um confuso e esquizofrenicamente divertido Burn After Reading em 2008, um existencial A Serious Man em 2009 e o último True Grit, que ainda não vi, em 2010, conseguem aquilo que Woody Allen, por exemplo, não consegue: lançar um filme por ano com uma qualidade elevadíssima e a um nível tal de perfeição, que só mesmo duas pessoas o conseguiriam fazer, em prazos tão apertados (note-se que Woody Allen desde de 77 que lança um filme por ano, enquanto que os Cohen só entraram neste ritmo muito mais recentemente).

em A Serious Man os Cohen contam a história de um professor universitário que vê o seu casamento, o seu emprego, a sua condição moral, assim como a financeira, e a liberdade do seu irmão em risco, ao mesmo tempo. é neste momento que Larry Gopnik (magistralmente interpretado por Michael Stuhlbarg) entra em desespero com o ritmo alucinante com que todos os problemas surgem e crescem, procurando respostas na religião judia, a qual sempre fez por respeitar. um filme sobre fé e esperança, que acaba de uma forma absolutamente inesperada. atingindo várias vezes um registo cómico com a indiferença e incompreensão que as pessoas têm para com Larry é um filme negro, muito negro.

as interpretações são brilhantes, a música deambulando sobretudo entre o mais conhecido tema dos Jefferson Airplane e uma composição de Carter Burwell é perfeita e a imagem maravilhosa. a realização é perfeita assim como o filme é irrepreensível.


"The Uncertainty Principle. It proves we can't ever really know... what's going on. So it shouldn't bother you. Not being able to figure anything out. Although you will be responsible for this on the mid-term."

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

egipto sem p


hemácias faciais, imagem da casa

o que se está a passar no egipto é importantíssimo, não só para áfrica, como também para nós, ocidentais. é o futuro de toda uma civilização global que está em jogo. não tenho muito bem a certeza, sou muito novo, mas parece-me que este é o primeiro movimento de revoltas genuinamente popular a acontecer numa aldeia global e num país não ocidental.

de uma forma lacónica, este processo que começou na tunísia, julgo, pode ter dois resultados: a chegada da verdadeira democracia a áfrica, que com todos os seus defeitos é mil vezes melhor que as ditaduras impostas; ou a imposição de regimes ainda mais autoritários. independentemente do que isso significa para o egipto, para nós ocidentais isto pode valer como incentivo ao protesto ou, por outro lado, levar ao medo, porque afinal de contas as revoluções ainda que feitas por populares, não vão de encontro à vontade geral, tendo muitas vezes consequências nefastas como sangue, feridas, fracturas, infecções, miséria, violência.

o egipto, que há muito havia perdido o poder (o popular), decidiu revoltar-se e mostrar que um cidadão pode não mandar nada, mas que só no cairo há 20 milhões e que esses sim são o egipto, esquecendo os exércitos, governantes, fronteiras. os países são as pessoas, os povos, as culturas. e uma revolução por semana dava jeito para não nos esquecermos disso.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

miserabilia

vidrados com baixa auto-estima somos todos uns miseráveis que andam sem saber por onde vão. daí o sucesso, a sua necessidade. num mundo sem miseráveis o sucesso era mescla comum de vida e integridade biológica, o sucesso era indiferente porque existir era mais importante.

somos todos miseráveis, vivemos com baixa auto-estima, o rico, o saudável, até o feliz. todos pobres coitados às mesmas leis superiores, divinas ou sabe lá alguém o que são. até os deuses são miseráveis. sujeitos a se amarem, a se odiarem, a mandar profetas à terra, a criarem de um chicho de carne entalado numa costela um ser lindo e magnífico. é a loucura, a psicose, a falta de bom senso largar seres com percepção ao seu destino.

miseráveis, miseráveis, oh miseráveis seres. isto é um grito de desespero, um grito de despego, um grito de liberdade que algo ou alguém quis que eu desse, ou talvez não quisesse mas assim fez.

não há nada maior