segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

posto 13 - dia 31 de Janeiro

paranóia ou existência de um ser superior?

Fleet Foxes| Helpless Blues em maio





com uma belíssima capa, Helpless Blues é, definitivamente, o nome do segundo e novo álbum dos Fleet Foxes. com uma primeira parte mais tradicional, o tema de avanço (de mesmo nome que o álbum) apresenta a sonoridade própria dos Fleet Foxes, desta feita banhada com guitarras eléctricas, no que pode ser uma aproximação aos Blues, como, aliás, parece ser prova disso o título do álbum.

sons de vez 2011| linda martini



desde o primeiro momento da sua carreira, os linda martini mereceram respeito e aclamação do público. mereceram um apoio quase incondicional daquela que é uma das maiores bases de fãs (não organizada) da música alternativa e moderna portuguesa da actualidade. com as suas guitarras transportam quem os ouve para um mundo próprio onde se percebe a magia que o baixo e a bateria vão fazendo e todo o poder que emana das suas letras, quando há voz. porque os linda martini não precisam de voz para nos mostrarem alguma da melhor poesia que já se fez em portugal. instrumentalmente perfeitos, liricamente densos, os linda martini são um dos destaques do cartaz deste ano do sons do vez.

domingo, 30 de janeiro de 2011

a efemeridade das pequenas eternidades

não existe nada mais breve que os momentos que ficam para sempre. um sorriso, um cumprimento, um toque, um nome, um olá. tudo isso não se esquece nunca. uma expressão facial, uma música, um sentimento, um filme, um concerto, um livro. são coisas que tão depressa começam, como depois teimam em não desaparecer nunca. em oposição temos as demoradas filas de trânsito, as longas horas de trabalho, os complexos processos burocráticos, que, uma vez terminados, desaparecem num instante, apagados da memória de longa duração que dirige o homem ao céu ou ao fundo da terra, conforme pecou muito ou não, ou conforme tem mais que fazer do que acreditar em seres superiores. a memória é selectiva. por vezes tortuosamente selectiva. creio que nunca deixarei de dizer aquele nome, mesmo na ausência da sua legítima proprietária.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Queen| Play the Game



não sou o maior fã de Queen. eles são me relativamente indiferentes. mas têm músicas fora do normal. é o caso da Bohemian Raphsody e desta Play the Game, por exemplo. sem luxos, constroem uma relativamente simples canção de amor. belíssima por sinal.

Woody Allen| longe de todos



paranóico, com personalidade única, vai-se afastando do mundo. é assim Alvie Singer, o protagonista de Annie Hall representado pelo próprio Woody Allen, que aparte toda esta animosidade para com o mundo e a incapacidade de se relacionar profundamente com mulheres está profundamente apaixonado por Annie Hall.

Annie Hall é um interessante exercício de abstracção da realidade em que, tal como noutros filmes de Allen, a câmara não tem medo de se fazer notar, servindo de registo da mente de Alvie e, consequentemente, de Woody Allen.

este filme de 1977 é também um ensaio sobre a inevitabilidade da morte que aprofundou já em 2009 com Whatever Works (no fundo Boris, tal como Alvie, é um pseudónimo de Woody Allen, abordando por isso temas muito semelhantes).

"´There's an old joke - um... two elderly women are at a Catskill mountain resort, and one of 'em says, "Boy, the food at this place is really terrible." The other one says, "Yeah, I know; and such small portions." Well, that's essentially how I feel about life - full of loneliness, and misery, and suffering, and unhappiness, and it's all over much too quickly. The... the other important joke, for me, is one that's usually attributed to Groucho Marx; but, I think it appears originally in Freud's "Wit and Its Relation to the Unconscious," and it goes like this - I'm paraphrasing - um, "I would never want to belong to any club that would have someone like me for a member." That's the key joke of my adult life, in terms of my relationships with women."

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

novo projecto



demorou 17 anos a escrever. tem 1200 páginas. não imagino quanto tempo demorará a ler...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Deus das Moscas| o medo destrói a razão



O Deus das Moscas de William Golding é uma interessante reflexão sobre a origem do mal, sobre o caos e sobre o medo. a partir de um núcleo de crianças que sobrevivem a um acidente de aviação numa ilha deserta gera-se uma sociedade que tem dificuldade em se organizar. o medo, encarnado numa fera imaginada, destrói por completo a união dos pequenos, assim como a capacidade de pensar, libertando todo o mal, todo o ódio que até ali se havia acumulado. é um livro duro, que está magnificamente escrito para nos dar um soco na alma.

"-Imagina tu! Pensar que a Fera era alguma coisa que se poderia caçar e matar! - (...) - Tu sabias, não é verdade? Eu sou parte de ti próprio. Aproxima-te, aproxima-te ainda mais! Sou eu o motivo por que não se pode ir mais além? Porque é que as coisas são o que são?"

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

neste momento no porto| para mal dos meus pecados

David Fincher| The Social Network



A Rede Social não é um filme de reflexão, é antes um filme de entretenimento que sai da memória com facilidade. mas é um filme de entretenimento notavelmente bem construído que não deixa o espectador perder a atenção, engolindo-o na música magistralmente composta por Trent Reznor e na realização intensamente cerebral de David Fincher que transforma uma simples história de negócios, traições e intrigas numa elaborada experiência das mais fortes emoções humanas. com boas interpretações (destacando-se a excelente do protagonista Jesse Eisenberg), o filme termina com Baby I'm A Rich Man dos Beatles, uma escolha perfeita. menos essencial que outros filmes de David Fincher, este é um filme que vale a pena ver.

PS:. as parecenças deste filme com o filme 21 são óbvias. descobri agora mesmo que ambos são adaptados de livros de Ben Mezrich,tendo produção da empresa de Kevin Spacey.

domingo, 23 de janeiro de 2011

o tédio| esse miserável tédio

"Descobre que compreende o tédio da sua existência, em que cada caminho é uma improvisação, e uma considerável parte do tempo em que está acordado é consumida em ver onde põe os pés."

William Golding em O Deus das Moscas

é isso. sacanagem de olhos que nos fogem do lugar, para se concentrarem em algo tão fútil como o solo, como se fizesse mal algum tropeçarmos, cairmos, falecermos, virarmos húmus.

sábado, 22 de janeiro de 2011

a inevitabilidade da morte: o desespero



a inevitabilidade da morte é, por si só, um tema inesgotável. em 1957, no mesmo ano de Morangos Silvestres, Ingmar Bergman pegou no texto bíblico e nos sete selos (sendo o sétimo a morte) e numa época manchada pela peste negra, para criar um texto notável. também a inexistência de deus aparece nesta obra em que a luta contra a morte está brilhantemente metaforizada num jogo de xadrez, em que o resultado, desde o início parece estar definido.

Broken Water ao vivo

voltando aos Broken Water, recebi feedback deles. um dos seus membros, jon, mostrou algum embaraço na inclusão do vídeo de uma performance da Memory, que, na opinião dele, não é das mais bem conseguidas. deixou também ligações de outros concertos. desde já agradeço ao jon, e aos broken water, por terem perdido tempo a ler o comentário ao álbum que eu fiz. e aqui ficam as escolhas de jon:





terça-feira, 18 de janeiro de 2011

"my daddy was an astronaut"



há muito que ando para ouvir alguma coisa do Nick Cave, escritor e guionista que ficou conhecido pela sua música com os Bad Seeds (Nick Cave & The Bad Seeds). os Grinderman editaram o segundo disco o ano passado, Grinderman 2, mas só agora ouvi esta Man In the Moon, um registo de 2007 que vale a pena ouvir: teclados que chamam por The Doors,um notável papel de guitarra (ou de similar instrumento de cordas eléctrico), um baixo aditivo com a bateria a finalizar. chega-se a sentir o sonho e desilusão da letra magistralmente composta por Nick Cave.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ponte de tédio


Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.

Mário de Sá Carneiro

sinto tédio. mais que isso, sou tédio. tão deprimente como qualquer palhaço pode ser. é interessante ainda assim essa indefinição: não ser nada, ser a ausência de tudo. não é interessante, é antes giro de se dizer, porque é giro dizer coisas contraditórias, ou talvez não seja giro, mas dá-me um gozo do caraças e é assim que não me encontro.

não fazer nada é, até certo ponto, uma manifestação última de liberdade: fingindo de morto, atingimos essa liberdade suprema que é estar independente do corpo, do mundo, até do espírito, como um pedaço de nada que somos, sem consciência atrás de nós, perdidos no vazio. ou isso ou como estar preso num poço sem ter como sair, apenas sabendo o quanto se deseja estar no exterior.

domingo, 16 de janeiro de 2011

mudança de marés



a forma intempestiva como o piano entra em The Pelican, em harmonia com a voz desesperada, em nada previne o ouvinte para a força libertada aquando de "leave you nothing", desaguando numa sequência de bateria e guitarra perfeita. é uma alegoria de um pelicano e do pescador a quem rouba o peixe, uma relação humana em que existe aproveitamento de uma das partes, susceptível a forças superiores. retirada de Friend and Foe, o brilhante álbum dos Menomena!.

defina eternidade:


o homem de pau, foto da casa

eternidade é para sempre. antes de acabar recomeça e é como se tudo fosse tudo desde sempre. e o nada nunca foi mais que uma ilusão, pedaço de algo sem nome. e não me chamas, dás-me a mão com a face triste e nem sempre foi assim, mas eterno prossigo eu, como se não tivessem passado os anos que passaram, como se não fosse já tudo diferente. eu prendo-me às eternidades e fico melancólico. infames eternidades que já são noutro sítio, não aqui. aqui é tudo como parece ser: tédio, carbono e água.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

que admirável mundo novo?



Brave New World, de Aldous Huxley, apresenta-nos uma sociedade "perfeita" onde "toda" a gente é feliz, incentivada a ser feliz, obrigada a ser feliz, através de diversos mecanismos de condicionamento, aquilo a que hoje se poderia chamar programação. à parte a história, bem conhecida de muitos, fica lançada a questão "o que é mais importante? a felicidade ou a liberdade?", para além da mais negra e sombria "não é também o desejo da liberdade fruto de programação? e se assim for, será a liberdade livre?". uma das possíveis respostas é a existencialista, a de Sartre e amigos, segundo a qual, a liberdade só pode existir quando o ser está condicionado: são os condicionamentos que dão ao indivíduo a liberdade.

voltando ao livro, é um romance muito pessoal, muito importante para a reflexão e para o auto-conhecimento. um livro fundamental para a construção completa do indivíduo.

ps:. sintam-se livres para dar a vossa opinião ou, até, colocar novas pergguntas.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

2010 em resumo: filmes, álbuns, livro

Melhores filmes de 2010

a maior parte dos filmes são de 2009, mas estreados em Portugal em 2010.
por ordem mais ou menos aleatória.
não vi muitos filmes que gostava de ter visto. vi a Origem.


Mr.Nobody - Jaco Van Dormael


The Imaginarium of Doctor Parnassus - Terry Gilliam

Whatever Works - Woody Allen
The Man Who Stare At Goat - Grant Heslov
Das Weisse Band - Michael Haneke
Filme do Desassossego - João Botelho

Melhores álbuns de 2010
1- Linda Martini - Casa Ocupada
2- Broken Water - Whet
3- Mão Morta - Pesadelo em Peluche
4- MGMT - Congratulations
5- Crippled Black Phoenix - I, Vigilante
6- Gorillaz - Plastic Beach
7- Joanna Newsom - Have One On Me
8- Big Blood - Dark Country Blues
9- Tungs - Sleeping
10- The Coral - Butterflie House

O Livro de 2010
que não se pense que não li mais que um livro em 2010, mas apenas 1 foi editado em 2010.

valter hugo mãe - máquina de fazer espanhóis

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A DIFERENÇA CAUSA ISOLAMENTO E INFELICIDADE.

A INFELICIDADE CAUSA REVOLTA, VONTADE DE MUDAR.

- pequenas verdades

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

é insensato tocar com o céu nas mãos


é insensato tocar com o céu nas mãos, foto da casa

é insensato dizer que estou deprimido ou que tenho qualquer tipo de perturbação mental. é só o tempo que passa e eu não sei que lhe fazer. é só a existência que é vaga, esquizofrénicos de nós que vemos não um reflexo mas vários rostos humanos. é só a solidão da multidão, a solidão do pequeno grupo, a solidão da privacidade, a solidão de se ser humano distinto dos restantes e mais ninguém ver, como nós. é só a virtude que não é de todos, porque não chega um desafio, que multiplica-se logo por todos os seres, vezes vários. é só a carne que apodrece, ou que para não, não deixa apodrecer outras carnes. é só o reflexo de tudo, porque não se bastava ser, ainda há consequências, reflexos, peixes-espada e barbatanas. é só a depressão que se espalha por todos os humanos igualmente miseráveis que têm de viver com o que lhes dão. é só tudo, é só nada, é só uma música,um poema.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sons de Vez 2011 - 9ºa Mostra de Música Moderna de Arcos de Valdevez



como tem acontecido todos os anos, o Sons de Vez vai-se organizar entre fevereiro e março, com bandas de grande qualidade. é uma pena que não tenha escrito nada sobre alguns desses nomes. merece destaque a qualidade gráfica do cartaz.

Mr.Nobody - Jaco Van Dormael



inicialmente, o título deste filme chamou-me a atenção.
depois, o nome de Jared Leto roubou-me a vontade.
por fim, o trailer obrigou-me a ver o filme. e ainda bem que vi o trailer!

constitui as memórias de um velho (o último mortal) que se confundem. um filme sobre escolhas e sobre um homem que viveu todas as vidas que poderia ter vivido, porque qualquer uma delas era a vida certa... tudo com base na escolha impossível de um dos pais para uma criança. poético, confuso, apresenta ainda algumas teorias científicas interessantes, abordadas de uma forma poética. foi uma agradável surpresa.

Nemo Nobody velho: Before he was unable to make a choice because he didn't know what would happen. Now that he knows what will happen, he is unable to make a choice.

domingo, 9 de janeiro de 2011

le miserable - 9 days of wait/ não demores



nova experiência. desta vez ao nível do vídeo.

2010 em álbuns - 1. Linda Martini - Casa Ocupada



orgias de guitarras, bateria magistral, baixo poderoso, palavras que nos roubam a alma. é difícil escolher um álbum dos Linda Martini, todos diferentes, todos igualmente perfeitos. este foi para mim o álbum de 2010.

para além de um universo doloroso, intenso e poético comum a todas as músicas, há algumas que se destacam, por apresentarem uma maior intensidade e densidade psicológica. em Nós os Outros sente-se o desespero de uma relação que nunca funcionou, na Mulher-a-Dias vê-se a sujidade e o caos da alma desarrumada, a toda-poderosa bateria de Hélio Morais atinge o céu para nos dar uma reflexão sobre a partida em Elevador, há espaço para o devaneio juvenil de Juventude Sónica, o baixo perfeito e a crítica ao mau perder como incentivo à acção em Belarmino VS. tudo isto num álbum que reflecte o início dos Linda Martini, o regresso a um universo que é deles, um álbum que após as primeiras audições exorciza qualquer coisa.







nunca percebi se nesta cena ele estava a ser sarcástico ou se é mesmo uma estratégia para lavar as mãos. de qualquer das formas, aposto na primeira hipótese.

sábado, 8 de janeiro de 2011

2010 em álbuns - 2. Broken Water - Whet



talvez seja exagerada esta posição dos Broken Water. partindo de influências claras de Joy Division e Pixies, os Broken Water caminham por registos muito longe das minhas preferências, caminhos paralelos a bandas como Best Coast e Dum Dum Girls, mas numa intensidade e complexidade muito superior. o que os fez merecer tão elevado posto no top foi a forma como conseguiram reproduzir esse som e construir um álbum perfeito dentro do estilo, para além de intenso e profundamente melódico.

um baixo digno de Peter Hook, uma bateria com alma, solos pequenos e escassos mas perfeitamente enquadrados e rasgueados aliciantes, para não falar nas duas vozes desanimadas, no melhor dos anos 90. adicione-se a isso alguns rasgos profundos de identidade própria e apresentam-se assim os Broken Water.

das 8 canções deste álbum de apenas 30 minutos há 3 músicas que se destacam naturalmente: a belíssima Kamilche House e as poderosas Say What's On Your Mind e Memory, esta última tendo o momento alto do álbum: um solo de guitarra fenomenal, pouco floreado, simples e eficaz.

PS:. ao vivo parecem ser bem interessante.



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

2010 em álbuns - 3. Mão Morta - Pesadelo em Peluche



a partir de A Feira de Atrocidades de J.G. Ballard os Mão Morta construíram este álbum conceptual. "como se a vida se transmutasse num perturbante pesadelo de desconcerto numa mente entorpecida pelo peluche do conforto" diz Adolfo Luxúria Canibal. então, ao longo do álbum vão-nos sendo apresentadas bizarrias diversas bem acondicionadas pelo instrumental. "mais vale nascer e morrer, do que não nascer e não morrer" ouve-se em Fingir de Morto: é assim que se retira valor à morte, encarando-a com realidade. no fundo é isto que os Mão Morta vão fazendo.

numa abordagem mais sombria, O Seio de Esquerdo de R.P. apresenta-nos a bizarria das imagens de alguns grafitos e o processo cerebral que lhe é referente, Tiago Capitão conta-nos a história de um criminoso que se escondeu na sociedade tentando apagar a identidade, Biblioteca Espectral volta ao nosso cérebro para nos explica-nos a memória e Metalcarne, num registo que passa pelo electrónico para ilustrar fetiches.

de um ponto de vista mais bem disposto e, aparentemente irónico, a fim de provocar o contraste entre as duas dimensões do registo, são-nos apresentados a já referida Fingir de Morto, Teoria da Conspiração, que dá apoio às teorias da conspiração , o funk-rock de Estância Balnear e o single Novelos de Paixão. esta última, com uma letra básica, muito abaixo do habitual de Canibal, é a ganha-pão do álbum.

um pouco à parte aparece Tardes de Inverno que, nem sombria nem alegremente, nos dá com toda a força. um instrumental imediato, poderoso e duradouro (agora e para sempre), uma letra muito bem articulada apresentado com a melhor voz do Adolfo a tocar o desespero " demência sem jeito/num rumo desfeito".

não é com certeza o melhor álbum dos bracarenses, mas é um álbum em que por várias vezes atingem o nível da genialidade, como é o caso das duas músicas seguintes.



Das Weisse Band - Michael Haneke



um paciente conto que mexe com moralidade, autoritarismo, repressão e a reacção. com brilhantes reflexões sobre a morte e a existência (o clip abaixo é, talvez o mais conhecido do filme) e com uma narrativa fluente e penetrante, O Laço Branco torna-se um filme obrigatório, obviamente para quem respeite o género. (é difícil falar sobre o filme).

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

2010 em álbuns - 4. MGMT - Congratulations



os MGMT fartaram-se do indie pop e evoluíram para o indie rock psicadélico e, diga-se de passagem, ainda bem. já almejado o sucesso, decidiram usufruir da liberdade num álbum que, pelo menos no meu caso, demorou a cativar. enquanto no anterior trabalho (pelo menos nas músicas que passam na rádio, nunca me dei ao trabalho de ouvir o álbum anterior, tentei, mas não era para mim) destacavam-se melodias simpáticas que nos entravam pela cabeça dentro e não saiam enquanto não nos dissessem o quão bonitos éramos, neste a construção musical é bem mais complexa com variações de energia e de estados de espírito muito interessantes e com recurso a uma sonoridade e a elementos claramente psicadélicos. parece impregnado com uma boa dose de ironia. o próprio título é ironia pura, porque mais que se congratularem com o álbum anterior decidiram fazer algo diferente.

arrancando com a enérgica e festiva It's Working, atinge a melancolia em Someone's Missing, a loucura eufórica de Flash Delirium marcada por alguns rasgos de genialidade, o existencialismo de Siberian Breaks (é a palavra que utilizo para descrever "there's no reasons/ there's no secrets to decode") espalhado por 12 minutos absolutamente irresistíveis, o horror instrumentalmente riquíssimo Lady Dada's Nightmare, finalizando esta reflexão sobre o primeiro registo com a faixa-titúlo, também ela impressionante.

no futuro espero mais destes MGMT. este álbum mais do que uma confirmação, é a promessa de uma banda superior, ponto de transição entre o pop das massas e a música de culto.





quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

obsessão


obsessão é efeito boomerang. é algo que temos dentro de nós que vai e vem, não nos deixando. algo que marca a nossa existência, marca os nossos actos, por ser o caminho que nos aparece pela frente para seguirmos ou não. é uma insensatez segui-lo. é o caminho do sofrimento e da perturbação mental. assim como a insensatez do jobim é obsessiva, eu sou obsessivo: por ela por música, por vida. a vida é obsessiva. só as coisas neutras não provocam obsessões.

como uma música tocada em repeat, a obsessão é o desejo de criar um circulo, uma linha que nos salve do efémero, que nos granjeie eternidade. a obsessão é o medo da morte e o medo da vida. é uma fuga de sofrimento e dor, que nos parece guiar a algum lado, limitando-nos a passear num carrossel . no fundo todo o esforço é inútil, a sobrevivência é inútil, a vida é inútil. não só as artes. tudo é inútil, a partir do momento em que temos uma escolha que nega tudo, fazendo com que nada exista. nada que seja susceptível de não existir é útil, tudo é inútil. é a obsessão que nos faz seguir por entre o inútil. também ela é inútil. tudo é inútil. cada um cria para si os seus universos de inutilidade. a liberdade é isso.

e a obsessão não a limita. é lhe indiferente. a obsessão sou eu. a obsessão é isto em repeat:

2010 em álbuns - 5. Crippled Black Phoenix - I, Vigilante



de todos os projectos influenciados pelo rock progressivo dos Pink Floyd, este é um dos meus favoritos. Crippled Black Phoenix é um supergrupo britânico cujos membros vêm de bandas como Mogwai, Iron Monkey, Electric Wizard e Gonga. a banda, que se formou em 2004, lançou 4 álbuns, 3 dos quais entre 2009 e 2010. um deles este I, Vigilante.

poderoso, épico, este álbum move-se em torno de um conceito que ronda a justiça após a injustiça (talvez daí o vigilante do título), como a bonança após a tempestade, socorrendo-se de factos históricos (que eu desconheço) na construção dos papéis líricos. as letras, maioritariamente duras, pouco flexíveis e contidas, libertam-se em determinados pontos da música levando atrás de si toda a música, e a voz, obviamente. é esta harmonia que nos desarma. escusado será dizer que o trabalho das guitarras está absolutamente bem conseguido, assim como a bateria e o baixo. este último, em algumas linhas, assume contornos inesperados que fazem toda a diferença. há ainda piano, orgão e diversas cordas que funcionam na perfeição, conferindo uma voz épica ao álbum. é o caso de Bastogne Blues, que apresentando alguma influência oriental, é um épico que parte da ideia de um jovem nazi morto cuja imagem ia sempre atormentar, à noite, o narrador. muito forte e intempestiva aparece We Forgotten Who We Are, que constata a falta de interesse que existe em relação à história, com a bonança de Fantastic Justice, que remete para um futuro, ou presente, em que as injustiças findarão, ou pelo menos para essa esperança.

o álbum abre de uma forma desarmante com Troublemaker, que com um refrão aditivo, perfeito e de efeito duradouro, se torna a faixa mais poderosa do álbum. a explosão que ocorre no refrão, permite tudo isso, com baixo, guitarra e voz a puxarem todos para o mesmo lado.

apesar de não tão frequentemente como outras bandas, os CBP recorrem ainda a alguns clichés do rock progressivo, que só os prejudica, pois eles, sendo uma banda de rock progressivo , abarcam muitas mais influências das outras experiências dos músicos que a constituem. talvez por causa disto eu considere que a música Of a Lifetime está a mais no álbum. talvez seja necessária para o conceito do álbum, mas musicalmente para além de não se assemelhar, não está ao nível das faixas anteriores. pelo menos para os meus ouvidos. e só por isso este álbum não está uns lugares acima.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

2010 em álbuns - 6. Gorillaz - Plastic Beach



as diferenças entre este Plastic Beach e o anterior Demon Days são óbvias: num ambiente mais amplo, uma variedade de sonoridades maior, um conceito, talvez, menos interessante. enquanto alguns álbuns ganham força na homogenia, este vai buscá-la à grande variedade de músicas e estilos. é sobretudo um álbum menos sombrio. temos White Flag com os jambés e os sons de influência aparentemente árabe, Rhynestone Eyes em que a voz de Damon Albarn ganha o máximo protagonismo, Stylo, a faixa mais sombria do álbum com participações de Mos-Def e Bobby Womack, a super-alegre Superfast Jellyfish, Glitter Freeze com Mark E. Smith (The Falls) que parece mesmo uma qualquer faixa do último álbum dos Muse, só que melhor (com excepção das mais orquestrais), Some Kind of Nature, música relativamente bem disposta que merece a voz de Lou Reed, On Melancholy Hill, provavelmente a música mais bela do álbum, a faixa-título que arranca patrocinada pelos Clash, naquela que é uma das melhores músicas do álbum, principalmente, mas não só, graças à introdução, To Binge calma e preguiçosa com Little Dragon, um quase À Cappela de Bobby Womack (Cloud of Unknowing), e Pirate Jet que encerra com muita classe e nível o álbum, entre outras que passam mais despercebidas. não sei se consegui, mas pelo menos tentei demonstrar a grande variedade de sons deste álbum.

não sou o maior apreciador de música electrónica, mas estes Gorillaz, que têm muito de electrónico (o último álbum deles The Fall pareceu-me, nos poucos contactos que tive, ainda mais electrónico), não deixam de fazer parte das minhas bandas favoritas e são das bandas mais influentes do momento.

Synecdoche, New York - Charlie Kaufman




ao longo das últimas semanas fui-me rendendo a Charlie Kaufman. mas nenhum dos outros filmes que já vi (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Adaptation e Being John Malkovich) me preparou para isto (ainda que o meu favorito continue a ser o do malkovich).

na sua estreia como realizador Kaufman apresenta o seu mais esquizofrénico guião, com jogos de identidade, obsessões, morte e medo dela. no fundo, os ingredientes são sempre os mesmos, mas a forma como os utiliza é sempre nova e genial. neste filme, Caden (interpretado pelo brilhante Philip Seymour-Hofmann) é um encenador de teatro e hipocondríaco que ao mesmo tempo que é abandonado pela mulher recebe um prémio que o faz decidir criar uma peça de teatro gigantesca, a fim de ser recordado após a morte. num armazém, decide construir uma réplica de nova iorque (que conta com o próprio armazém) arranjando personagens que fizessem dele e dos seus conhecidos. o projecto arrasta-se por décadas.

é um filme complexo. um dos filmes mais complexos que já vi, talvez a par de Dr. Parnassus de Terry Gilliam, (Inception é brincadeira de crianças ao lado deste), onde o tempo quase não existe, a vida de Caden mistura-se com a peça e os actores se confundem com as pessoas que lhes deram origem. é um filme fora de série, provavelmente o mais genial que já vi, motivo pelo qual nem sei o que pensar.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Dr. Strangelove - Stanley Kubrick



não era bem disto que estava à espera. vai uma diferença brutal entre este e os A Clockwork Orange e The Shining, no que diz respeito ao estilo da abordagem. apesar de serem todas elas excêntricas (não sei se é a palavra certa, mas enfim).

2010 em álbuns - 7. Joanna Newsom - Have one on me



esta não é a mesma Joanna Newsom que em 2004 nos apresentou o aparentemente ingénuo e atrevido Milk-Eyed Mender, provida com pouco mais que uma arpa e uma voz deliciosa. se por um lado perdeu graça, por outro ganhou poder através de orquestrações mais complexas, epopeias de 11 minutos e uma gama de registos vocais mais ampla. mais madura, apresenta uma voz lírica notável, muito diferente da que marcou o primeiro registo, essa voz que tanto criava amor como ódios. não está pior, mas também não está melhor, está apenas diferente. eu até preferia aquela voz irreverente que, por vezes, ainda se deixa ouvir neste lindíssimo álbum.

não se pense contudo que é fácil ouvir este álbum de uma ponta a outra. aliás, quase nenhum dos álbuns que aqui adicionei e ainda vou adicionar revelam o seu valor numa só audição, são sobretudo álbuns que crescem com cada audição. o caso deste é outro: constituído por 3 CD's, o álbum tem um total de aproximadamente 120 minutos. apesar disso, e apesar de conhecer pouco o 3º CD posso garantir que a qualidade ao longo de todo o álbum se mantém, havendo naturalmente pontos mais altos que outros.



a faixa-título é aquela que melhor apresenta a dinâmica do álbum, com ritmos, intensidades e orquestrações variadas ao longo dos seus 11 minutos, sempre marcados pela harpa e pela voz de Joanna Newsom.

de referir que ela dará a partir do dia 24 de Janeiro uma série de 3 concertos (Porto, Aveiro, Lisboa) que estarão certamente entre os melhores deste arranque de 2011

e para mostrar a minha face preferida daquela que é, provavelmente, a minha voz feminina preferida (está seguramente entre as minhas preferidas) deixo aqui um vídeo e um link para um post que aqui publiquei, ambos com músicas do Milk-Eyed Mender.


domingo, 2 de janeiro de 2011

2010 em álbuns - 8. Big Blood - Dark Country Blues


com uma orquestração notável, familiarizada com a folk, os Big Blood apresentam com este Dark Country Blues um trabalho muito bem feito. com a energia difícil de conter de Creepin Crazy Time, em contraponto com a contida em Ringers in the Fold, chega também a transcendência de Reverse Hymna e a paciência de I´m Waiting. é, sobretudo, um álbum que sabe bem ouvir. desde as cuidadas instrumentações às belas vozes femininas, Dark Country Blues é um só lugar amplo, como um planalto do qual observamos todo um vale, vendo o rio que o atravessa correr com diferentes caudais.



Adaptation



nem de propósito: ontem, na rtp2, começou a exibição de Adaptation, realizado por Spike Jonze, escrito por Charlie Kaufman e Donald Kaufman a partir de um livro de Susan Orlean. o filme parte da filmagem do filme Being John Malkovich para conhecermos a situação de Charlie Kaufman: um argumentista que, num difícil período da sua vida, desesperado por culpa da sua falta de capacidade para se sociabilizar, aceita trabalhar num guião a partir de um livro sobre orquídeas e seus ladrões de Susan Orlean. entra em desespero por não conseguir escrevê-lo, enquanto o seu irmão gémeo, Donald, decide dedicar-se também ele a escrever guiões, tendo bastante sucesso. a certa altura, Charlie pede-lhe ajuda, e ambos investigam o que está por trás de toda aquela paixão por orquídeas de Susan. é esse percurso que Charlie decide escrever.

é um filme sobre a adaptação de Charlie Kaufman, um misto de realidade e ficção, com as orquídeas no centro da acção. de realçar o facto de Donald Kaufman, o gémeo ficcional de Charlie, ter sido incluído nos créditos e ter sido, juntamente com o irmão, nomeado para um óscar.

2010 em álbuns - 9. Tungs - Sleeping



esquizofrénico, ruidoso, livre é o mundo do sono. é essa a proposta que nos fazem os Tung, banda da Virginia dos EUA, que este ano lançou Sleeping. por entre numerosos ecos da vida real, o sonho começa pela poderosa faixa-titulo, numa viagem que alterna diferentes níveis, funcionando como um escape da realidade (sentimos na faixa Sleeping todas as dificuldades e contrariedades). já dentro do sono, o sonho atinge o seu máximo em Dream Machine , passando por uma já bem mais calma Like. espaço para um descanso em The Sound, de carácter muito experimental, num jeito que lembra o grande Manel Cruz. chega então a perfeita e instrumental Take the (d) train que viaja entre diferentes estações(dos) de espírito. The Floating Masses segue-se trazendo consigo uma sensação de elevação única. a viagem termina com Snafu.

Sleeping é um excelente álbum, uma epopeia do dia-a-dia, se bem que insuportável para pessoas pouco tolerantes a ruído.


sábado, 1 de janeiro de 2011

2010 em álbuns - 10. The Coral - Butterfly House



"The whole kind of concept we had was the death of mystery," said band member Nick Power. "You know, the 'Butterfly House' itself is supposed to be this place that you make up, that the modern world and all the, like, information and technology in it can't touch."

com um certo cheiro a Beatles, mas sobretudo a um Lennon a solo, aparece este álbum. melodias fortes. uma enorme melancolia. sabe a passado. merecem destaque as inúmeras guitarras, muito e bem utilizadas ao longo de todo o álbum. à felicidade de Walking in the Winter, junta-se o mistério da faixa título Butterfly House, a guitarra acústica de Roving Jewel, a paz de Falling All Around You, as recordações de Coney Island, o sonho de Dream in August, fechando com a obsessiva Circles. um álbum-refúgio de paz, onde por vezes espectros de uma outra vida se fazem ouvir.



menção especial para a música Circles que nos bombardeia com teclados obsessivos e letras redundantes, com direito a um notável solo de guitarra, a desaparecer com uma rajada de vento. música digna de comparações com a caneta de richard wright.

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Brincando com o conceito de identidade, explorando ao máximo obsessões, Kaufman escreveu, aqui, o mais genial dos seus guiões. Que posso mais dizer? Esmagou-me completamente... Brilhantes interpretações, brilhante direcção, brilhante música. Brilhante conceito. Brilhante final. Brilhante.