terça-feira, 27 de julho de 2010

Deserto

Está calor, mas que se há-de fazer? Como uma crise ou qualquer outra maleita que assola de um momento para o outro toda uma região ou país, esta fogo que não cai do céu, desce antes levemente, correndo através de fenómenos de convecção, ataca-nos por golpes de condução, deixando-nos KO, desgastados, ou simplesmente nós próprios. Podemos fugir e podemos esconder-nos, mas esse fogo é tão forte que chega a todo o lado.

Há, no entanto, quem goste do quentinho, e, como quem agradece a Deus uma chuva divina, peregrinam até ao altar de bronze da actualidade. Tostadinhos e tostadinhas dos dois lados, e todo o mundo é feliz. E beleza por todo o lado, como nesta televisão desligada que em vez de lixo transmite o vazio. Tudo é perfeito quando não há nada. E não há nada para além das esplanadas, das peregrinações, das ondas de pessoas. E como cobras saem do seu refúgio à noite para regularem a temperatura e todo o mundo num cântico só agradece ao mundo estabelecido.

É neste período de calor intenso, equilíbrios térmicos mal posicionados e águas sujas de areia, óleos e outros lixos, que as formigas param, deixam de trabalhar, enquanto outras formigas, no solo e à superfície, trabalham. Este deserto de formigas que somos irrita-me por vezes, mas funciona de uma forma aparentemente tão perfeita que ignoro quem sou, e, como tal, ignoro se é a verdade o que eu digo, ou se apenas palavras que me saem da boca, como aviões que saem dos aeroportos rumo a paraísos vários. Álcool, música, barulhos naturais, tudo isso misturado num cocktail preparado para a catarse do ano inteiro. Isto é viver: acumular desconfortos, para, num momento de maior liberdade soltar, num guincho de alívio e prazer, tudo aquilo que somos, mas sem querer, reprimimos.

Compreendo perfeitamente que não disse nada. Mas é o que me é possível dizer neste deserto de ideias.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A ouvir #52

Porque é que Passos Coelho é melhor que Sócrates?



Compreendo que não se vejam diferenças entre eles. Mas elas existem e não vale a pena ignorá-las.

Desde que me recordo, o PS critica a direita por defender as privatizações. O PS e a restante esquerda criticam, particularmente o PSD, como aliás está a suceder agora, em relação à revisão constitucional. Não vou falar da restante esquerda, que eu acredito fingir fechar os olhos, mas a hipocrisia de José Sócrates que ora entrega hospitais a privados, condenando-os à política do lucro fácil, ora critica alterações na Constituição, que afinal de contas já existem, caso contrário expliquem-me as taxas moderadoras e o aumento do preço dos livros. Isto não é ser tendencialmente gratuito.

Quanto às privatizações recordo-me que a grande massa delas foram feitas pelo PS, sempre pelo PS. Assim como as parcerias público-privadas, que são desastrosas políticas.

Expliquem-me então, qual é o crime de Passos Coelho em querer algo, que afinal de contas, o governo de Sócrates e o de Guterres já implementaram anteriormente? Não o defendo, mas pelo menos tem a dignidade de dizer exactamente o que quer, em vez de se fazer de esquerda, quando se torna claro que é de direita, ou algo ainda pior, algo de desastroso.

Passos Coelho é melhor que Sócrates porque quem vota nele está à espera da postura que ele apresenta. Já quem vota em Sócrates pensa que está a comprar cavalo, mas leva pior que burro.

domingo, 25 de julho de 2010

MIinnemann Blues Band live@ Feira do Livro de Arcos de Valdevez



Distinções devem ser feitas entre as feiras do livro em vilas e em cidades. Nós por cá temos muita coisa. Mas no que toca a feiras do livro, o interesse limita-se a "4 ou 5" livros e 1 ou 2 raridades. Não é no entanto sobre isso que vou falar. Vou apenas alongar-me sobre uma das bandas que participou nesta iniciativa.

Wolfram Minnemann é, ao que parece, o mentor desta banda. Uma banda matura em idade e aparentemente em experiência. O estilo que praticam não está na minha área de especialidade, até porque não tenho uma, mas se tivesse, não seriam com certeza os Blues. Como tal não tenho termos de comparação.

De qualquer das formas, é de salientar, para além da enorme presença em palco, apesar de este ser quase minúsculo, a grande voz e teclados claro de Minnemann, à primeira audição próxima da voz de Louis Armstrong, o magnífico saxofone de Rui Azul, a magnífica guitarra de Mãos de Ferro, a potente bateria de Rui Cenoura, e o baixo discreto, mas não menos espectacular, de Manuzé, sempre acompanhados com uma enorme dose de boa disposição e de um bem doseado sentido de humor.

Nestas condições não poderia acontecer outra coisa que não a elevada adesão do público, praticamente inexistente noutros dias. Minnemann Blues Band (tem ligação), uma banda a ter em conta. Pelo menos, e principalmente, para quem não tem outras referências dentro deste universo.

Lançaram álbum há pouco tempo e estarão nos próximos tempos no Porto, em Faro, Caminho, Moledo e Matosinhos.

leituras 4 - O Senhor Ventura - Miguel Torga



Para além de prodigioso poeta e de grande homem Miguel Torga também é um incrível romancista. Apesar de poucas obras, romances, os que escreveu, valem o suficiente para o provar.

O Senhor Ventura é uma obra sobre um homem que desde sempre fora insubmisso, desrespeitador da lei e tivera uma sede enorme por liberdade. Características que o levaram a ser enviado para Macau, visto não respeitar quaisquer horários na tropa. Este ex-pastor faz vida no oriente onde anda constantemente em busca de algo, que nunca chega a encontrar, envolvendo-se em muitas ilegalidades, participando em muitos crimes. Regressa um dia a Portugal, onde ironicamente ganha a paz (nunca manifestara ou sentira vontade de regressar) que nunca teve, mas não para sempre. A obra não acaba aqui, mas tentei-me reduzir ao mais elementar, apesar de ser um romance que não chega às 100 páginas.

Um romance curto, mas carregado de emoções. E bem ao estilo de Torga, carregado de Portugal, mesmo quando a acção está bem longe.

"Não me resigno à ideia de ter vindo à luz neste tempo e numa terra durante séculos inquieta de descobrir e saber, e depois tragicamente adormecida para tudo o que não seja olhar-se e resignar-se. Parece-me um castigo imerecido do destino e da história."

"Eles eram, na sua letra rude e na sua sinceridade rude, uma imagem viva da terra rude que os viu nascer."

"Contra todo o bom senso, era novamente o perigo e a liberdade que lhe apeteciam. Eram ondas desmedidas e pesadas, e terras sem sossego e sem carinho que o seu corpo desejava enfrentar."

"Os conselhos da amiga chinesa só prestavam para quem tivesse nascido no Celeste Império. Para gente da Ibéria, a calma, a prudência, e tudo quanto defende um homem das fervuras do sangue, eram palavras vãs."

sábado, 24 de julho de 2010

Segurança

Tenho pena de pensar assim. Por vezes apenas. Nem sei bem como penso, mas tenho dúvidas em relação a tudo. Por vezes questiono-me, serei eu inseguro? Pouco corajoso? Incapaz? Não, simplesmente incapaz de me dar a passos maiores que as pernas, nem tão pouco a passos maiores que os pés. Creio que estou simplesmente demasiado seguro para mudar o que quer que seja...

Mais vale ficarmos calados

quando não temos nada para dizer.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

leituras 3 - o velho que lia romances de amor - Luis Sepúlveda



Sou um confesso admirador da literatura sul americana. Aprecio um não sei quê de transparência, simplicidade e clareza. Se calhar estou só a generalizar, mas em todos os livros que li desta rota, têm em si algo de único.

Mais do que um livro sobre romances de amor é uma obra de amor à floresta, mais concretamente à floresta tropical, a Amazónia, esse paraíso que está cada vez mais em vias de extinção.

"Quando havia uma passagem que lhe agradava especialmente, repetia-a muitas vezes, todas as que achasse necessárias para descobrir como a linguagem humana também podia ser bela."

"Antonio José Bolívar ocupava-se de as manter à distância, enquanto os colonos devastavam a floresta construindo a obra-prima do homem civilizado: o deserto."

"... e dos seus romances, que falavam do amor com palavras tão bonitas que às vezes lhe faziam esquecer a barbárie humana."

terça-feira, 20 de julho de 2010

leituras 2 - Contos Poe.liciais



Edgar Allan Poe é um dos escritores mais célebres da língua inglesa. Poeta que viveu no século XIX e morreu com 40 anos, ficou notório pelos seus poemas e contos, e também por ter inventado (assim se crê) o género policial.

Antes de Poirot ou Sherlock Holmes, já Dupin investigava e resolvia quebra-cabeças com distinção. Não de uma forma tão detalhada e narrada, num estilo mais preocupado com a explicação do raciocínio Poe lança as primeiras cartas, que marcarão a história da literatura.

É de realçar o conto O Mistério de Marie Rogêt que Poe escreveu a partir de uma história real. Este serviu-se unicamente dos jornais para escrever. O mais é incrível é o facto de que tempo depois de este escrever o conto, duas pessoas, uma das quais com correspondência na obra, envolvidas no caso confirmaram a conclusão geral e até mesmo os seus principais detalhes hipotéticos.

Os Crimes da Rua Morgue
"Sinto-me contente por o ter batido no seu próprio terreno. Não obstante, que não tenha podido deslindar este mistério, nada tem que cause espanto, e é mesmo menos singular do que ele julga, porque, na verdade, o nosso amigo perfeito é um pouco demasiado fino para ser profundo."

A Carta Roubada
"Contesto especialmente o raciocínio extraído do estudo das matemáticas. As matemáticas são a ciência das formas e das quantidades; o raciocínio não passa da simples lógica aplicada à forma e à quantidade. O grande erro consiste em supor que as verdades a que se chama puramente algébricas são verdades abstractas ou gerais.

O Mistério de Marie Rogêt
"A massa do povo considera como profundo só aquele que emite contradições picantes da ideia geral. Tanto em lógica como literatura, é o epigrama o género mais universal e imediatamente apreciado. Em ambos os casos é o género de mérito mais baixo."

quarta-feira, 14 de julho de 2010

sábado, 10 de julho de 2010

Brevemente (Provavelmente)



A minha relação com este blog alterou-se ao longo do tempo. Mudou de tal forma que é possível (para não dizer desejado) que este desapareça, dando origem a algo novo, algo mais próximo do que eu preciso neste momento. Isto são tudo suposições, ou melhor, planos com muitas dúvidas, que podem, ou não avançar...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

arrisco-me a dizer que foi de propósito


montagem manhosa

arrisco-me a dizer que foi de propósito
só dessa forma tudo encaixaria
resplandeceria

flores
música
luz
e algures musa

nu escuro,
tudo parece passo fora de sítio,
tudo parece mudança de planos
fim de dia luzidio

claros acessos de sombra
minutos de solidão
chave da clausura
do recato da multidão

parece que sonho
pedaço de alucinação
sei que não fui eu
que olhei para a minha mão

(breve epifania,
demorada observação
eterna obsessão)

arrisco-me a dizer que foi de propósito

terça-feira, 6 de julho de 2010

segunda-feira, 5 de julho de 2010

boas intenções


Untitled, Robert Williams

Peço desculpa se é forçado, banal ou ridículo. Por vezes a existência é assim. Sucede. Por outras, acontece. Talvez o Arestídes Sousa Mendes quisesse tornar-se um herói, talvez isso tenha sucedido naturalmente. Independentemente disso, ele tornou-se um herói, e mereceu-o. Boas intenções há muitas, e valem o que valem, mas o que realmente importa são as acções.

Eu sou um tipo de boas intenções que acaba por não fazer nada, ou fazer porcaria. Sou eu, e muita gente. Esse tipo de gente, ou gentalha, é absolutamente dispensável para a Humanidade, absolutamente inútil. Na Terra de que valem as suas acções, se estas não existem? É por isso irrelevante a existência de tais seres. Sou irrelevante, um mero pedaço de pó, que por entre o nada, pouco mais será que um ácaro, por muito mais que aspire a alcançar.

Gosto de pensar que as boas intenções valem sobretudo para os seres inúteis se desculparem. Eu desculpo-me com elas muitas vezes, e sempre com boa intenção: a de acalmar meu espírito, para finalmente poder fazer alguma coisa... Não creio que valho uma chaveta, mas acho que sou, mais ou menos, não poderei especificar, boa pessoa.

de Rudinei Borges, daqui

Uma pessoa não precisa de fazer nada de especial, nem tão pouco precisa de uma vida segura, roupa lavada, saúde, comida em cima da mesa. Pouco mais que um ponto no chão onde assentar, um pedaço de espaço para ser. Tudo o resto é o essencial, e por isso importa tão pouco.

É incrível o que uma pessoa pode fazer, o quanto pode surpreender o meio que a envolve, e a si própria. É incrível como isso acontece tão poucas vezes, como tudo costuma acontecer tal como está previsto, ou melhor, dentro de hipóteses aceitáveis à partida.

domingo, 4 de julho de 2010

A ouvir #48

Olhar para trás com intensidade pode causar graves danos ao pescoço


algures aqui

Não sei se és tu. Mas penso em ti. Mais nada faz sentido. Tu e vazio. Tudo e Nada. Não sei onde estás, onde foste, em que pensas. Eu penso em ser o que nunca fui. E sigo sendo, o mesmo de sempre, aquele que tenta não ser, ou que tenta ser outra pessoa qualquer. Não posso ser tu, não suporto ser eu, tudo o mais são erros da existência, pequenos desvios do cálculo superior do acaso.

- ...

Não me lembro se falaste ou se esquizofrenia. Talvez sopa e uma sande de atum. Cabeça no ombro cansada. Não te abracei não aconteceu. É muito mais real o nada, o casual do não acontecimento, que o factual. Lembro-me que sim porquê? não talvez

Tanto tempo passou. Não sei quem sou, não sei se ainda sabes quem eu sou (sabes, sei que sim, mas talvez de uma forma passiva, muito pouco), como posso eu saber se és tu?

Estranho discurso na segunda pessoa, que não te busca a ti, mas a mim próprio.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

integral

Há coisas que não fazemos de propósito. Acontecem, e deixam-se acontecer. Gostava de acontecer um dia... Algures no final da minha juventude. Gostava de muita coisa, por vezes acredito que sim. Gostava de me saber integrar, gostava de ser uma pessoa íntegra, gosto de cereais integrais. Mas isso não está ao acesso de qualquer pessoa (os cereais integrais talvez estejam).

Ser é coisa difícil, coisa complicada.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

leituras



"Não sabia que a liberdade não é uma recompensa, nem uma condecoração que se festeje com champanhe. Nem, aliás um presente, uma caixa de bombons para lamber os beiços. Oh!, não, é uma estopada, pelo contrário, e uma corrida de fundo, bem solitária, bem extenuante. Nada de champanhe, nada de amigos que ergam a sua taça, olhando-nos com ternura. Sozinhos numa sala sombria, sozinhos no banco dos réus, perante os juízes,e sozinhos a decidir e perante nós mesmos ou perante o juízo dos outros. Ao cabo de toda a liberdade, há uma sentença; eis porque a liberdade é pesada de mais, sobretudo quando se sofre de febre, ou nos sentimos mal, ou não amamos ninguém."
Albert Camus em A Queda

Costumes


foto daqui

Uma pessoa acostuma-se. Acostuma-se a tudo. Acostuma-se à vida, às rotinas, às pessoas. Acostuma-se de tal forma, que todos os "costumes" a que estamos acostumados se parecem repetir em qualquer sítio que estejamos. A vida é feita de padrões. Talvez não, mas os acostumados ser a coisas semelhantes acham que sim.

Não sei de que vale construir uma rotina. É um vício evitável, que apesar do desejável aproveitamento dos tempos mortos, nos rouba tempo, passando este mais depressa. Afinal de contas, não precisamos de tanto tempo para compreendermos e recebermos as coisas novas. São tudo padrões. Tudo costumes.