segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O vendedor de jornais


- Um, dois, três.

Parecia contar o tempo baixinho (ou o tempo contava-o a ele?). O vendedor de jornais sorridente: mais um cliente. O frio era algum e corria sem se ver. E as pessoas não viam. E as pessoas não se aqueciam umas às outras. Havia muitos carros, como já era habitual. Estava um dia particularmente citadino, com os seus sons e cheiros. Os raios de Sol cortavam as nuvens que caíam no solo cansadas, da muita água derramada. Um arco-íris! Momentâneo, mas estava lá, efémero como tudo, eterno por segundos. O vendedor de jornais sorria: já tinha valido a pena ir trabalhar! As pessoas passavam de olhos fechados e alma invisível (ou de alma fechada e olhos invisíveis?) seguindo as marcas no chão. Em tudo era um dia normal. Isto é, se houver tal coisa.

Eu estava na esplanada, ao fundo da rua, de onde podia ver tudo: a mercearia da dona Dores, o café do senhor João, a pastelaria do Vitorino, até conseguia ver ao de leve o reflexo de Bruxelas e outras mil cidades europeias. Estavam todos cheios de gente que procurava naqueles espaços familiares a família que nunca teve verdadeiramente. Não conseguia ver o vendedor de jornais, escondido por uma multidão de pessoas, que queria saber tudo sobre o último escândalo, que procurava esconder a sua vida nas garrafais letras dos títulos. Eu tomava um café enquanto esperava por ela. Conhecera-a há seis anos, num dos meus grupos de amigos. Andei três anos pelas ruas sem a ver, sem a entender como era. Nos últimos três, ela foi o centro de tudo: durante um enlouqueci por ela, no seguinte tentei esquecê-la, e no último tornei o sonho real. Éramos só amigos, mas isso já era muito sonho. Esperava-a sob o olhar dos telhados das casas antigas, como se esperasse por uma nova vida, melhor, mais minha.

Conseguia ver agora o vendedor de jornais, solto de pessoas. Ele olhava cada alma que por ele passava, como se procurasse dentro delas, aquilo que perdeu há muito dentro de si. E todas as almas se olhavam a medo, pelo canto dos olhos, procurando algo umas nas outras, fechadas dentro de uma pequena caixinha de carne, algures perdida dentro do crânio dos animais. O vendedor de jornais deixava a sua alma livre, deixava que ela comandasse o seu corpo e não o contrário. Por isso foi o único que, naquele dia igual a tantos outros, previu e tentou prevenir a minha morte.

-CUIDADO!

Mas era tarde demais. Ela, a minha nova vida, tinha acabado de ser levada, enquanto eu olhava para ela, sem reparar no carro que viera.

A ouvir #4



e a Lights Out. podem ouvir essa aqui.

domingo, 29 de novembro de 2009

Sonhador


Dream Machine, by Robert K.


Nunca fui pessoa que gostasse de sonhar. Entro sempre em conflito comigo próprio, porque não gosto de sonhar em cenários impossíveis, ou irrealistas, e isso faz tão bem... Nem em pequeno era capaz de o fazer.Isto não quer dizer que não sonhe. Sonho e sonho muito... Então ultimamente ando imerso em universos paralelos, que nada, pouco ou muito pouco têm a ver com a realidade. E nunca andei tão bem. Despreocupado. Separado da realidade. Sonhador.

sábado, 28 de novembro de 2009

A ouvir #3

15/07/2008 - 22/11/2009



foto aqui


Em menos de uma semana arrumei um ano de escritos. Demasiado eu. É o eu que lá está escrito, demasiado talvez até. É o eu, a busca da minha liberdade, e da minha identidade. Continuo à procura, mas estou já mais perto, talvez mais longe, de cada vez que procuro. Por respeito a quem tenho vindo a ser, evitei apagar o que quer que fosse, claro que houve algumas mudanças inevitáveis, é o tempo que passa. Apenas três poemas saíram, porque não se justificavam. Terá muitos maus momentos, momentos em que me envergonho lendo-os, mas sei que fui assim, e não posso mandar essa parte de mim embora. Ainda por cima não é para ser um êxito, é para eu o ler e poder voltar a casa, ao passado a que já pertenci, porque já lá voltei quando o li só para montar, corrigir, melhorar... E é a minha alma que está lá, reconheci-a! Por vezes banal, sempre insaciável, com olhos apenas para si própria, sou eu, ou pelo menos, alguns eus que já fui e vou sendo.

Por agora vou-me ficar mais um pouco pelo Passado. É que está-se mesmo bem por aqui.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Vincent - Tim Burton - curta . 1982

Uma amiga mostrou-mo há pouco tempo (obrigado Paula!). Não conhecia. É espectacular! Tem uma música simples mas linda, profunda. Quanto ao ambiente, tresanda a Tim Burton. Conta a história de um rapaz de sete anos chamado Vincent cuja imaginação é completamente fértil e macabra. Uma criança triste que brinca sozinha, inventado universos próprios. É um clássico sem dúvida, mas eu não conhecia. Pormenor interessante, a história é narrada por Vincent Price.


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

@ myspace - Mob of God

Existem imensas bandas com imensa qualidade no myspace, e no youtube ou por aí desconhecidas, e muitas delas com imensa qualidade. Para isto servirá este espaço.



Note-se que os Mob of God não têm meios limitados, e isso sente-se nalgumas músicas. O som nalgumas músicas não é de grande qualidade, mas isso é exterior à música deles. Poderão não ter músicas perfeitas, e moderão mesmo ter grande margem para melhorar, mas têm defenitivamente boa música. Influências? Difícil dizer... eles próprios afirmam que têm imensas influências! eu sinto um cheirinho a guitarras próximas do Jazz ou do Funk aqui e ali, noutros sítios mais Rock ou Metal. É difícil de descrever. Aconselho a ouvir a Lust Condemns e a cover da Jessica Rabbit, Why don't you do right. Gostei sinceramente da primeira, dos que ouvi, foi a minha preferida. Está mesmo muito forte, principalmente o refrão.

Mob of God, um nome a ter em consideração! Aqui fica o meu desejo de boa sorte!



Links
Canal do Youtube
Myspace

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nós, no mundo

Somos muitas, muitas pessoas. É triste, bastante triste, mas vive-se. Somos tantos, e tão diferentes, que é diferente lermos as páginas escritas por diferentes pessoas. As pessoas não se entendem umas às outras, perderam o poder de ler expressões, e os mal-entendidos multiplicam-se pelo chão da cozinha sujo, onde houve a mais recente discussão. Mais do que não se entenderem, as pessoas não querem compreender-se.

Não digo que por vezes não sucumbo há tentação de julgar os outros, como se não fossem também pessoas, mas não passo a vida a julgar os outros, e se passo, peço desculpa. O que é uma pessoa má? Quando é que alguém é arrogante ou tem a mania? Como é que se julga isso? Porque se por um lado compreendo que o Saramago seja considerado arrogante, não vejo de tudo a arrogância no Lobo Antunes, por exemplo... Acho-o uma pessoa, que por ser verdadeira, por não ser falsa, por dizer o que tem a dizer fica com uma imagem dessas. E são destas coisas que criam as imagens que as pessoas têm umas das outras. E são destas coisas que criam os mal-entendidos, as zangas, os ódios, os sofrimentos, as guerras.

Porque ódios nascem de mal-entendidos, e por vezes de maldade pura, mas de mal-entendidos maior parte dos ódios nascem. As pessoas não querem tentar compreender as outras: querem falar mal, querem ter motivos para não gostar, e quando vêm algo de que possam falar mal, aproveita-se logo. Sou sincero, faço isso muitas vezes, mas logo a seguir penso, critica indevida. Porque é muito difícil falar mal de uma pessoa. Pode-se falar mal do que ela faz, mas é complicado falar mal de uma pessoa. Só é possível fazê-lo quando há falta de compreensão.

Ne change rien





Curta de Pedro Costa de 2003, segundo o site dele, descobri-a nos anúncios da 2 (que são os que mais gosto de ver, devo dizer). Creio que saiu agora uma longa, com o mesmo título.


Em Ne Change Rien, Pedro Costa filma Jeanne Balibar, a cantora. É o resultado da amizade e do trabalho de vários anos, que em 2005 tomara a forma de uma primeira curta-metragem, intitulada Ne Change Rien.


Jeanne Balibar – já conhecida como actriz, em filme de Jacques Rivette, Laurence Ferreira Barbosa ou Olivier Assayas, entre outros, lançou o seu primeiro álbum como cantora, Paramour, em 2003, e prossegue desde então o seu trabalho em ambas as áreas. Nos palcos, foi dirigida por Olivier Py, Julie Brochen ou Boris Charmatz.

in Fundação Serralves

Esta curta é muito bela, digamos assim. A voz da Jeanne Balibar é especial, forte e frágil ao mesmo tempo, e dá muita força à simples guitarra que numa primeira fase a acompanha. É particularmente bonita a primeira parte. Preciso de ver a letra, porque o meu francês já não é o que era, isto se alguma vez foi! Recomendo.

domingo, 22 de novembro de 2009

noite fora #4



vejo a minha vida ser escrita numa pequena agenda, a que eu chamei de caderno, por motivos poéticos. a tinta começa a acabar. ...filmes de treta na TV é no que dá... vejo-me aqui impelido contra o grande saco de seres que eu sou... em diversos formatos: canto, escrevo, soletro, até vou dando uns pezinhos de dança, e finjo que realmente me agrada. e chega a agradar. esta vida não é mais minha que do vento que passa lá fora. não sei porque disso isto, nem o que quis dizer com isso, sei que fica bonito dizer, e eu vou sendo bonito, a ser o que nunca fui lá muito bem.

***

estou cansado, cheio de sono, ainda assim dei-me ao trabalho de vir aqui de propósito, para escrever umas palavras que finjo me saírem das mãos como se cera fosse (Cera??? Sim, cera..). com que objectivo. com algum certamente. com que objectivo um artista escreve, ou pinta, ou canta, ou faz outra coisa qualquer enquanto dança o vira. (não sabia que dançava. só Às vezes quando ninguém vê). talvez em busca de algum reconhecimento público, talvez em busca de algum prazer do momento, talvez em busca de algo que se esconde por detrás dos sentimentos, talvez porque me apetece uma perninha de pito frito, mas não sei que mais fazer. não sei porque estou aqui a me armar em esperto, a fingir que não tenho piada nem disposição para continuar a viver, só sei que me sinto bem assim, e por mim, continuava a escrever até o Sol se pôr... ou nascer, ou lá o que ele faz pela manhã.

***

páginas soltas: vida. é tudo o que tenho.... com algum tipo de desejo gosto de marcar a minha alma em papel, como se de uma folha de uma videira (ou de outra árvore qualquer) se tratasse. o perfeito está longe, algures no meio da roupa suja, por lavar. o sentido da vida mantém-se incógnito. e eu quero lá saber. estou com sono, pouco me interessa se sou ovelha, porco ou avestruz... mas quero muito ir para a cama... mas estou aqui tão bem... e a preguiça prega-me ao sofá. quero marcar a preguiça numa folha, a preguiça e o resto da minha alma, como se fosse mesmo minha... tenho essa ânsia, e ela não desaparece, sempre com o seu nariz empinado. passa um século e continuo a ser nada: ninguém leu o livro que escrevi. que serei então? pó de nada? pó de vida? pó de arroz? por isso vou rezando. por viver quanto melhor possível, e quanto mais. e vai-se vivendo, ou ia-se que estou a começar a ter fome...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

grupos



Estar num grupo não é fácil. É preciso manter o passo, acompanhar um ritmo, sorrir quando não se acha piada, sentir o que se não sente, ... Para se pertencer a um grupo é preciso querer-se. Eu não estou disposto a ser o único a abrandar ou a acelerar o passo, por isso muito dificilmente me vêm completamente inserido num grupo. Ando num, e sem dificuldade: não preciso de acelerar o passo, não preciso de parar, nem abrandar, já temos todos o mesmo ritmo. Mas isso já não é um grupo... é muito mais

música portuguesa em boas mãos - Governo



Chamam-se Governo e editaram recentemente um EP na 3ª série Optimus Discos, que para mim é já a melhor das três. Constituídos pelo escritor Valter Hugo Mãe, e os membros dos Mão Morta, Miguel Pedro e António Rafael, têm um som muito próprio, marcado especialmente pela voz de Valter Hugo Mãe, que se encaixa na música, de uma forma invulgar...
Quanto ao seu EP tem 5 faixas, das quais destaco a Propaganda Sentimental. Uma música calma mas poderosa, faz sentir e bem. É das que dá vontade de cantar....


Este projecto tem futuro, não só pelo reconhecimento que estes músicos têm, mas também pela qualidade que apresentam... A música portuguesa está em boas mãos...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

take just a miserable second #10


Waiting in Snow, del.icio.us

esperámos uma vida que pare de chover, que pare de nevar: que o caminho fique desimpedido. quando damos por nós, vemos que o caminho está agora cheio de neve, de água, de obstáculos. e nós sorrimos, ou choramos, sem ver o outro lado, mas sabendo que ele está lá.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Resmas de tempo



Tempo, doce eterna inconstante, impossível de definir, explicar, ou de entender. É um conceito de tal forma complexo, foge-nos de tal modo a tudo o que podemos saber, que é impossível dizer o que quer que seja sobre ele, completamente conscientemente. Sabemos que o tempo passa por nós... Passa ou acontece? Por isso não vou falar sobre a semântica em torno do tempo, ou desse conceito, não tão fácil de definir como inicialmente, antes da tomada de atenção, pode parecer.

Hoje, ou melhor, neste momento, pouco-me interessa o que é o tempo, se passa, se acontece, se corre, ou se está paradinho sentado numa paragem a fumar um cigarro. Estou bem, confortável. Música agradável. Uma modesta quantidade de ócio, sem exagerar! Pouco me interessa o que quer que seja... Só me interessa viver por agora. Por agora e por mais loguinho, que estou bem disposto.

O tempo é algo incrivelmente relativo. Conheço poucas coisas tão relativas como ele! Ou pelo menos, que tenham uma percepção tão relativa! Passei a tarde em casa. Míseras 6 horas. Não me lembro de estar fora de casa... Já nem me lembro de jantar, e foi há cerca de uma hora... Nem mesmo de ter iniciado este post, e não vai assim há tanto tempo.... É impressionante a forma como o tempo acontece! Parece que corre depressa, mas olhamos para trás e vemos o quanto vivemos, que foi muito, e muito. Cada segundo é uma pequena eternidade fechada em si!

Eu quero viver. Não tenho medo de morrer. Se não fosse quem está de fora, podia morrer já agora, mais loguinho, ou daqui a décadas, ou séculos. (só não quero que mo digam). Está-me a saber bem cá estar, mesmo quando estou deprimido, depressivo e deprimente me sabe bem cá estar, por isso nunca seria capaz de fazer o que quer que fosse contra mim. Mas se cada segundo é uma eternidade, não interessa quantos vivemos: basta um para vivermos eternamente.

e eu cá estou a fazer o meu melhor por isso

domingo, 15 de novembro de 2009

As crianças do Ocidente


trabalho PT (note-se a linguagem formal), comentário a uma imagem semelhante

Várias campanhas utilizam publicidade icónica ou chocante para passar a sua mensagem. É o caso deste cartaz.

Vivemos numa época em que impera o consumismo: o que interessa é comprar o mais possível, respeitando marcas. Parece que quando se não compra, há um vazio na identidade das pessoas. Elas não sabem o que são, e parece que comprando vão desenvolvendo um estudo profundo com objectivo de descobrirem a sua personalidade. Marca x é descontraída, y desportiva, z séria, o divertida, k triste, e por aí fora. Sabendo que marcas uma pessoa usa, sabemos mais ou menos o que as outras pessoas acham dela.

Essa é a principal preocupação dos povos ocidentais e seria irónico, se não fosse tão chocante, quando comparada com a principal preocupação de muitos povos: sobreviver. Estes povos não têm tempo nem dinheiro para se preocuparem com coisas tão supérfluas, e eu atrever-me-ia a dizer, incluindo-me no lote dos que ligam a isto, tão infantis. É este paralelismo que o cartaz tenta fazer: a pobreza do “ terceiro mundo”, que nem pode dar-se ao luxo de viver com algum conforto, e a pobreza de espírito ocidental, que exige não só o conforto, como exige determinadas marcas.

Já aqui apelidei o povo ocidental de infantil. O texto também o faz, com a imagem do “beicinho da criança”. A criança que queria umas Nike e teve umas Adidas, enquanto em África improvisam com garrafas velhas: esta mensagem não é só para crianças mas para todas as pessoas supérfluas e ingratas. Naturalmente incluo-me no lote.

Este cartaz pretende, senão acabar com o consumismo, pelo menos acabar com a ingratidão que a ele está associada. É uma campanha muito importante. Pelo menos para nascer respeito pelos povos mais pobres e pelo seu estilo de vida.

noite fora #3






sou escravo do que fui, e do que vou sendo. o passado é viciante para mim: ainda não aprendi a viver sem ele. parece que o livro em que escrevi a minha história está constantemente aberto, sem avançar. não quero ser mais nem menos do que sou: basta-me ser. e vou sendo por agora: filme japonês que não percebo, mas que não consigo mudar, os livros nas estantes a descansarem do seu merecido descanso (e estão assim há tanto tempo!) e eu aqui, sendo.

***

o que é que tu és?
-eu sou
mas o quê?
-sou
mas o quê?
-um ser
diz lá...
-mas como posso dizer algo que não sei?

e eu sou escravo da dúvida

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Nada



O nada é grande, incrivelmente grande. Eu não faço nada, ninguém faz nada, e começa a custar sentir pouco mais que nada. Há até quem diga que para lá do tudo, não há nada. Ora suponho, que para além do tudo deve haver muita coisa...

O nada é tão grande, que custa definir, explicar... Até falar sobre o nada por vezes coloca dúvidas, pelo menos a mim... "Não fazes nada!". Dá-se realmente muita importância ao nada, e ele bem que o merece... Não é um simples algo, ou um complexo tudo: é nada! E o nada não é algo? O nada não faz parte do tudo? Talvez, não faço ideia... Tudo o que eu sei é que não tenho nada que fazer e por isso estou aqui, a escrever nada.

Por tudo que o nada é, aqui lhe deixo a minha homenagem.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

...



O mundo anda deprimido. O mundo, a minha vizinha de baixo, o meu vizinho do lado, e o cão que se senta Às vezes à entrada do prédio a ver a chuva não cair. É uma depressão global que afecta todos nós. Não é a falta de dinheiro, é a falta de motivo, é a falta de essência, é a ausência de uma ordem e de uma estrutura, e o aparecimento duma previsibilidade que torna tudo parado. Dantes não se sabia como se fazia o quer que fosse, mas as coisas apareciam, aconteciam. Hoje, parece que este movimento a cem à hora é falso, parece que tudo está parado, ou quanto mais a andar para trás, em direcção a uma vida ignóbil, que nunca antes se viveu. O mundo anda deprimido. Eu não, eu sempre fui miserável, e um miserável já está habituado a isso tudo. Tudo o que faço é sorrir ironicamente para a toda a palhaçada e macacada.

Já não se escrevem cartas, já não se fala, já não se vê. A revolução tecnológica não me deixou de fora, mas não sou propriamente um adepto. As pessoas sem mais nem menos querem se suicidar. Se há coisa que eu faço, é questionar a minha existência, e até o seu valor. Mas nunca me passou pela cabeça fazer o quer que fosse. Não me vejo como um tipo infeliz, mas todos os sorrisos que transporto são muitas vezes exteriores. O suicídio não é coisa de pessoas felizes, mas sim pessoas felizes que não sabem como lidar com a tristeza... Eu dou-me bem com a tristeza... gosto mais da tristeza do que do tédio, esse sacana... mas há pessoas, que não a suportam, que não aguentam viver um segundo de tristeza, pessoas que talvez estejam mal preparadas para a vida.

Falo eu, criatura que não sabe o que diz, que nem sequer consegue continuar o tema de uma conversa... Que não gosta de criticar duramente, prefere criticar subtilmente, mas que carrega com dureza nas críticas. Agora sinceramente apetecia-me apagar todo o post, mas o que disse está dito, e não é completamente falso.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

não custa assim tanto existir



eu cá não me importo de existir. se existir. não cansa, mas mói. por não saber o que é não moer, não cansar, não sofrer é que tenho medo de não existir. a novidade cansa, mói, magoa. mas esta é uma daquelas novidades que eu não gostava assim tanto de experimentar. afinal de contas não custa assim tanto existir

"Sou um mulo que manca"




"como se chamavam as empregadas, dizia-lhes

-Tu

e bastava conforme lhe diziam

- Tu

em criança e lhe bastava também, de que servem os nomes e o que se faz com eles, no íntimo de si mesmo aceitava se o feitor e o filho o chamassem

-Idiota

em vez de se inclinarem com respeito

-Senhor

à medida que pensava não

-Sou o dono disto tudo

mas

-Sou um mulo que manca"
António Lobo Antunes in O Arquipélago da Insónia

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma qualquer estrada



Há uma estrada logo à entrada da vila que está igual desde que me lembro. Nada mudou, isto para não dizer que mudou nada. Toda a vila foi feita em obras, em construções ou reparações que a foram alterando: hoje é bem diferente do que era dantes, ainda que nalguns sítios muito subtilmente. Mas aquela estrada, logo à entrada está como se o tempo não tivesse passado. A única diferença é a vista que dantes se tinha e a imagem que fica nos olhos agora. O passado é como essa estrada. Por mais voltas que dermos, vai estar sempre no mesmo lugar, pelo menos até irmos em paz. Podemos dar quantas voltas quisermos, podemos vê-lo de formas diferentes por culpa do presente, mas o passado está lá, como esteve ontem, e ontem, e ontem, e antes.

Como esta estrada, milhares há. Como eu, milhões de outras pessoas olham para trás como quem olha. O passado é a única estrada garantida. Por isso às vezes não devíamos dar-lhe tanta importância. Não dar tanta importância ao que temos garantido. A nossa imagem. Criar algo novo. Algo verdadeiramente novo, que venha de nós, que venha do mundo. Seguir por uma outra qualquer estrada

09.11.89



"tear down the wall"

há coisas que não desaparecem. nunca

domingo, 8 de novembro de 2009

noite fora #2




há alturas da vida em que me apetece falar ou escrever, compulsivamente... cheirando o ar diria que não cheira a nada, ou que cheira a mim. apetece-me escrever agora, independentemente do que diga apetece-me escrever. apetece-me, porque como disse um post atrás gosto de ser livre, de correr, de voltar a ser criança, garoto, gaiato, infante, pequeno,... sabe bem ser o que não se é... sabe bem escrever...
**

o país vai mal, mal pa caraças, está um caos. de um momento para o outro surgiu um caso que só vem confirmar as suspeitas que já pairavam no ar há tempo de mais. de um momento para o outro a Terra abana, pelo menos aquele pedaço escondido por trás da Europa a que chamam Portugal. de um momento parece que os pilares da nossa ponte são feitos de cartão, e que a qualquer momento tudo pode cair. o que não é mentira. o país vai mal. sempre foi. mas parece que agora as pessoas não se preocupam com isso.

**

sinto saudades de alguém que não sei quem é. procuro nos meus arquivos mentais, mas passam indiferentes os meus olhos por cada uma das almas registadas. e continuo a procurar mas fora de mim. tudo me parece indiferente. nada brilha. e quando alguma coisa brilha um pouquinho, a sua luz parece cegar a vida, mas não passa de uma imitação de brilho. mas continuo à procura desse algo que não vou nunca encontrar (o nunca fica muito forte ali!).


sábado, 7 de novembro de 2009

Criança



Apetece-me correr. Desatar a correr por meio de campos e vales. Atravessar rios como lagarto que não sou. Tocar no Sol de passagem. Apetece-me correr, porque quero libertar-me de futuros, passados, presentes, ideias, ideais, pensamentos, reflexões... Quero libertar-me de tudo.. Quero libertar-me dos meus músculos, dos meus ossos, de todos os meus tecidos ...(quero que a minha pele fique espalhada pelo chão e pelo ar, por aí. Quero ser livre.... E, depois de me libertar, talvez consiga voar...

Quero-me libertar do que já vivi. Quero tornar a ser eu, eu, e só eu, sem quaisquer influências externas. Quero libertar-me. Quero correr. Quero tornar a ser criança.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Algures no mundo...

...neste preciso momento, alguém respira ao mesmo tempo que eu. Inspira e expira exactamente ao mesmo tempo que eu. Com uma tensão arterial e uma frequência cardíaca igual à minha, esse alguém escreve algures a sua alma. Aí acabam as parecenças. Nos milhões, biliões ou triliões de pessoas no mundo, muita gente pode ser igual a mim em muitos pontos, acredito que sim... Nem chego a ser um desses crentes na genética segundo os quais não há dois códigos iguais, gémeos fora... Não acredito nas probabilidades a esse nível. Acredito que haja pessoas iguais, que sintam o mesmo. Somente não acredito que haja almas parecidas ou sentimentos que sejam os mesmos... Essas coisas são sagradas

take just a miserable second #8


"Fui a Alcácer por um homem a quem quero muito, num momento difícil da sua vida: acabavam de lhe arrancar mais um bocado da infância, de lhe substituírem a existência por memória e quando nos mudam a cor à alma a gente sofre"

António Lobo Antunes

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

The Wall

Qualquer pessoa que aqui entre percebe logo o meu fascínio por Pink Floyd, especialmente pelo seu trabalho The Wall. Até agora sentia-me incompleto... Ainda não tinha visto o filme... Já vi... E é uma obra prima, um pouco alternativo talvez, talvez muito abstracto, mas fantástico.

Se ainda não viram, mais vale verem, do que acreditarem na minha palavra... Segue abaixo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pessimismo



Quase tudo o que escrevo, quer aqui no blog, quer a um nível mais pessoal, trata de tristeza, solidão, sofrimento, etc. Não sou, contudo, um pessimista. Eu posso até normalmente não esperar que aconteça nada de especial, mas não quer dizer que eu seja pessimista. Posso dizer que tudo está mal, mas isso não faz de mim um optimista. Sou até bastante optimista, porque no verso da moeda vemos palavras que falam de uma elevação de um crescimento, com sofrimento e dor, mas com intensidade.

O meu optimismo não é um daqueles que aparece por aí a dizer que está tudo bem. Também o faço, mas isso é no contexto social. O meu optimismo é aquele que mesmo vendo que tudo está mal, faz com que eu saiba que se quiser, posso sempre dar a volta.

De qualquer das formas, sim tudo vai mal: e daí? Continuamos a viver é o que interessa. Pegamos numa guitarra, numa folha e num papel, (também convém um lápis) e cantamos a vida que gostaríamos de ter. Pessimista, eu? talvez, mas também não me importo muito...

domingo, 1 de novembro de 2009

A nossa imagem


tirei-a daqui algures

Ao longo da nossa vida vamos criando imagens de nós. Umas na nossa mente, outras nas dos que nos rodeiam. Estas imagens são condicionantes à nossa actividade: nós vemo-nos como uma coisa, e dificilmente inovamos, ou fazemos algo completamente inesperado. Temos medo de fugir à nossa imagem, àquilo que fomos, ou que parece que fomos. Fora as devidas excepções. As escolhas que nós fazemos, para além da sua acção imediata, ainda vão influenciar um dia futuras escolhas.

Não queremos ser incoerentes com o que fomos no passado. Desde o início que nós vamos traçando o nosso destino. É claro que depois podemos seguir por outros caminhos, mas custa a dobrar. Para além do medo de mudanças na opinião que os outros têm de nós, também nos custa mudar pela nossa própria opinião. Por vezes mudar custa mesmo muito.

Por vezes gostava de dizer o que bem me apetece, o que me dá na real gana. Mas posso passar por ignorante, arrogante, ou rude. Por vezes deixo-me levar pela minha vontade, e digo o que me apetece dizer, sem sequer pensar. Fico sempre mal visto, porque isso não corresponde à nossa imagem. Se calhar por isso às vezes me calo, desnecessariamente. Tudo em defesa da minha imagem.

vida



a vida é bela. não é nada bela, é cruel; só alguém muito ingénuo, que não sabe com que palavras se escreve a vida é que diria uma coisa dessas. a vida é bela. a vida é triste e cruel, repleta de morte, sangue e destruição. a vida é bela. a vida é morte: só com a morte de uns outros podem sobreviver. a vida é morte. a morte é triste. a vida é triste. meu deus, como é a tristeza tão bela! como são a morte, o sangue e a destruição tão belos! a vida é bela.

noite fora




quantas vezes, sem saber o que dizer, optamos pelo silêncio?
é a pior das decisões: não passa da perpetuação do "e se".
eu vou-me calar, e esperar pelo teu perdão, por ter sido rude...